Há dez dias comecei minhas aulas de kundalini yoga. Fui procurar algo que conseguisse aplacar a ansiedade, que já há alguns anos tem ganhado a batalha contra minha força de vontade. Não queria fórmulas prontas (alopáticas ou não), mas algo que fizesse sentido para mim e conseguisse me ajudar no que eu pensava ser meu grande problema, lidar com o tempo, seu ritmo e suas consequências.
O grande desafio do ansioso é entender o tempo como um amigo, não como algo prestes a nos devorar. A ansiedade faz com que deixemos de enxergar luz no fim do túnel, simplesmente porque nem cogitamos perder tempo com o próprio túnel. Para nós, ansiosos, tudo tem que ser para ontem. E nos preocupamos tanto com a chegada que deixamos de ver/viver a beleza do caminho. Entendo perfeitamente como funciona, por isso a questão para mim sempre foi: ter consciência desse comportamento não é difícil, mas como conseguir que a consciência alterasse a realidade?
Há anos vinha tentando, por meus próprios meios, lidar com essa questão (não problema, porque segundo uma amiga me lembrou esse fim de semana, as palavras tem força, e problema é uma palavra pesada demais...). Terapia, escrita, florais, leituras. Todas essas tentativas me levaram a ficar mais consciente, mas não foram capazes de me ajudar efetivamente.
Com o tempo a ansiedade, que era apenas um traço da minha personalidade, foi se tornando uma característica dominante. E pior, dominadora. O presente passou a ser somente uma passagem para o amanhã, que era o que importava. Viver plenamente o momento, só uma frase de efeito, que eu achava que conseguia entender e aplicar. Mas na minha ilusão, pensava que ainda era capaz de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo.
Com a ansiedade vem a insatisfação. Todo ansioso é um eterno insatisfeito, porque o hoje não é capaz de suprir nossas necessidades, então pensamos que o amanhã (ou outra cidade, outro emprego, outro amor) vai conseguir aplacar a insatisfação. Pareço estar misturando as estações, não é? Também achava isso, que a infelicidade decorrente da insatisfação não estava relacionada com a ansiedade. Mas o que percebi é que elas estão intimamente ligadas.
Voltando ao início de tudo, comecei a kundalini yoga buscando aplacar a ansiedade. A calma e a paz inspiradoras do pós-aula não duraram nem 24h. Desde que as aulas começaram não consigo conter as lágrimas e uma tristeza sufocante. Uma sensação de angústia que vai apertando, fisicamente, o coração, até que ele começa a acelerar tanto que tenho que parar e respirar profundamente até que o ritmo cardíaco volte ao normal. Comer se tornou uma obrigação, porque a fome não existe. O sono serve para relaxar o corpo, mas os sonhos não são nada animadores.
Guardei essa sensação para mim por alguns dias, tentando entender o porquê de toda aquela angústia, relacionando com os pequenos problemas quotidianos, com as dúvidas usuais, com os arrependimentos por ações e comportamentos recentes, apressados, impensados e emocionais. Mas nada disso era suficiente para explicar a sensação de sofrimento, de uma tristeza profunda e, sem medo de parecer clichê, ancestral...
A kundalini yoga lida com a expansão da consciência, acordando e fazendo subir a energia kundalini pelo canal da espinha vertebral, atravessando e ativando os centros de energia denominados de chakras.
Quem me lê agora e que é cético quanto à questões, digamos, menos terrenas, pode achar estranha toda essa história de energia kundalini, chakras, etc. O que importa aqui é entender que não estou falando de religião, mas de transmissão e equilíbrio de energia. É físico,todo nosso corpo é formado por átomos que nada mais são do que energia pura.
Experiências em laboratório que modificam a vibração energética de átomos e seus componentes são capazes de gerar eletricidade. Então porque duvidamos que alterar nosso padrão respiratório, por exemplo, pode fazer nosso corpo funcionar melhor? A expansão da consciência (que podemos até localizar no cérebro, para que fique menos “espiritual”) seria apenas - e isso já é muito- a mudança de padrões vibratórios de nosso campo energético, formado pelos mesmos átomos que compõem todo o universo.
Essa “explicação” toda foi para conseguir dimensionar o que estou começando a entender, inclusive as razões para toda a tristeza e angústia. Busquei a yoga por causa da ansiedade, mas o impacto energético foi tão grande que meu corpo reagiu, imediatamente. Quem me conhece mais profundamente sabe da minha sensibilidade a algumas coisas menos "físicas"... Pois bem, essa sensibilidade quintuplicou com a yoga, instantaneamente. Fiquei assustada, até que veio a explicação: Era normal essa sensação, porque há muito tempo tenho empurrado sujeira para debaixo do tapete.
Tive que levantar o tapete e não gostei do que vi. A ansiedade me levou a sufocar problemas, dúvidas, desejos, medos, tristezas e dores profundas, porque eu não podia me concentrar nessas coisas enquanto tinha que viver tudo ao mesmo tempo agora. Mais ainda, tinha que viver com eficiência, porque o ansioso deve ser sempre eficiente...
A sensação que tenho é que durante muito tempo deixei de prestar atenção no que doía de verdade, no que realmente me incomodava e que clamava pela minha atenção para atender as expectativas – minhas e também das pessoas que eu amo. Eu não podia falhar. Afinal, força, bom senso, perfeição e determinação era o mínimo que eu me exigia.
Diante da tal “sujeira” debaixo do tapete, me sinto uma fraude ao ler algumas coisas que escrevi aqui. Parecem inspiradoras, mas bem poderiam fazer parte de qualquer livro de auto-ajuda sem significado. Soam vazias uma vez que não são efetivamente vivenciadas ou aplicadas aos meus próprios problemas.
Estou tentando. Tentando aceitar que conseguir manter a espinha ereta já é um bom começo, para então começar a pensar na mente quieta e no coração tranqüilo. Aceitar que não preciso ser perfeita e dizer as coisas certas, no momento em que as pessoas querem ouvir. Aceitar que não posso controlar quase nada do que acontece ao meu redor, menos ainda a vontade e as ações dos outros. Aceitar que pode doer, que posso sofrer e que isso não me faz pior nem menos admirável.
Porque estou usando o blog para falar sobre isso? Escrever sempre foi uma maneira de conseguir tornar mais claras minhas próprias idéias, desejos, pensamentos, crenças. Ainda que nesse momento eu esteja considerando tantas das minhas palavras como vazias, ao escrevê-las acreditava plenamente no que saía do teclado.
Esse espaço, apesar de ser público, é visitado mesmo pelas pessoas que me conhecem, que acompanharam minhas mudanças. E para muitas delas eu sou importante. Então acho que talvez elas queiram saber e não é estranho usar esse espaço pra mais um desabafo (bem grande dessa vez...)
O que fazer com tudo isso agora? Não ter medo do que ainda virá com esse mergulho na yoga, para começar. Depois, bem, whatever works.
Whatever works é o título do último filme do Woody Allen, no Brasil traduzido como “Tudo pode dar certo”, uma tradução muito otimista pro espírito do filme. Prefiro essa: o que vier, tá de bom tamanho. Preciso acreditar que aceitar o que vier é uma tentativa válida e talvez a única diante do que estava escondido debaixo do tapete.
BH, 17/08/2010
terça-feira, 17 de agosto de 2010
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
Expectativas amorososas
O Fabio Hernandez, meu escritor barato preferido, começou há algumas semanas seu Dicionário Conciso Amoroso, que chega agora à letra “R” que é de “Relaxe e Goze sem Expectativa”
“Costumamos iniciar cada romance com a expectativa de um conto de fadas. Nada menos que isso pode ser satisfatório: um conto de fadas em que todos terminemos felizes para sempre. Em que todos somos, eternamente, príncipes e princesas. Queremos do outro que resolva todos os nossos problemas. Todas as nossas frustrações. Que preencha todos os nossos vazios. E, quando isso não acontece, nos sentimos imensamente fracassados. E projetamos no outro toda a responsabilidade pelo fracasso. É o começo do inferno.
Eu diria o seguinte. Um bom passo para tentar um relação melhor é diminuir as expectativas. Contos de fada não existem. Mas existem romances divertidos, intensos e marcantes. Que não precisam necessariamente durar uma vida inteira. Pretensões menores geram decepções menores. Quando vejo um amigo dizer que está vivendo um legítimo conto de fadas, pressinto logo o tombo. Raramente me enganei.”
Gosto imensamente do que o Fábio escreve, mesmo quando ele é um machista disfarçado. Normalmente concordo com as opiniões dele, e não foi diferente com esse post: um romance real deve ser vivido sem expectativas, o que vier é lucro.
Claro que concordo integralmente com o que ele escreve, afinal penso tanto sobre o assunto e, antes de tudo, gosto de acreditar que sou uma “mulher moderna”, antenada com meu tempo e com as formas de se relacionar, que hoje não passam pelo conto de fadas.
Ok, na teoria, tudo lindo.O problema é que, na prática, a teoria pode ser outra.
Fomos criados e educados numa sociedade que privilegia o ideal do amor romântico, do conto de fadas, da outra metade da laranja e, na maioria esmagadora dos casos, é isso que acabamos buscando num relacionamento, mesmo que inconscientemente. Serão necessários anos de erros, decepções, culpa, sofrimento e muita reflexão para que alguns consigam realmente enxergar com lucidez que o nosso ideal de romance nada mais é do que reflexo de como a sociedade, o cinema, a TV, nos vende esse ideal. Não se deixar levar por essa “ilusão” passa a ser o desafio para quem quer relacionamentos lúcidos, reais e equilibrados.
O problema é que, quando envolvidos no enredo amoroso, quase sempre esperamos que este seja o definitivo, o último, como nos filmes com final feliz. E isso acontece até com aqueles que conseguem enxergar com lucidez, como meu estimado escritor barato.
A nossa tendência, humana e quase “natural” (não gosto nem um pouco dessa palavra, mas vá lá...), de buscar no outro um reflexo melhorado daquilo que somos, deixando sob sua responsabilidade preencher aquilo que nos falta, leva invariavelmente à criação das expectativas. Não se pode negar que - para a maioria dos homens e mulheres criados com a visão do amor romântico como ideal de felicidade, incluindo esta que agora escreve - quando estamos preenchidos pelo desejo amoroso, pela emoção do encontro, é extremamente difícil não se deixar levar pelas expectativas, pelo sonho, pelo desejo infantil de ter todas as nossas carências e necessidades supridas pelo outro, que nos amará incondicionalmente...
É nessa hora que acabamos percebendo que nossa aura de modernidade, que considera os relacionamentos amorosos não um fim em si mesmo mas apenas uma pequena parte da sua evolução pessoal, acaba dando lugar aos comportamentos óbvios e esperados do ser apaixonado.
Ah, meu caro escritor barato, o verbete da letra R é teoricamente lindo...Racionalmente aceito muito bem que contos de fadas não existem, mas sim a possibilidade de romances divertidos, intensos e marcantes, e que pretensões menores geram decepções menores. Mas será que você não teria aí um manual para emprestar, que treine o ser apaixonado a não criar expectativas, relaxar e gozar????
Janaina Ferreira
09/08/2010
“Costumamos iniciar cada romance com a expectativa de um conto de fadas. Nada menos que isso pode ser satisfatório: um conto de fadas em que todos terminemos felizes para sempre. Em que todos somos, eternamente, príncipes e princesas. Queremos do outro que resolva todos os nossos problemas. Todas as nossas frustrações. Que preencha todos os nossos vazios. E, quando isso não acontece, nos sentimos imensamente fracassados. E projetamos no outro toda a responsabilidade pelo fracasso. É o começo do inferno.
Eu diria o seguinte. Um bom passo para tentar um relação melhor é diminuir as expectativas. Contos de fada não existem. Mas existem romances divertidos, intensos e marcantes. Que não precisam necessariamente durar uma vida inteira. Pretensões menores geram decepções menores. Quando vejo um amigo dizer que está vivendo um legítimo conto de fadas, pressinto logo o tombo. Raramente me enganei.”
Gosto imensamente do que o Fábio escreve, mesmo quando ele é um machista disfarçado. Normalmente concordo com as opiniões dele, e não foi diferente com esse post: um romance real deve ser vivido sem expectativas, o que vier é lucro.
Claro que concordo integralmente com o que ele escreve, afinal penso tanto sobre o assunto e, antes de tudo, gosto de acreditar que sou uma “mulher moderna”, antenada com meu tempo e com as formas de se relacionar, que hoje não passam pelo conto de fadas.
Ok, na teoria, tudo lindo.O problema é que, na prática, a teoria pode ser outra.
Fomos criados e educados numa sociedade que privilegia o ideal do amor romântico, do conto de fadas, da outra metade da laranja e, na maioria esmagadora dos casos, é isso que acabamos buscando num relacionamento, mesmo que inconscientemente. Serão necessários anos de erros, decepções, culpa, sofrimento e muita reflexão para que alguns consigam realmente enxergar com lucidez que o nosso ideal de romance nada mais é do que reflexo de como a sociedade, o cinema, a TV, nos vende esse ideal. Não se deixar levar por essa “ilusão” passa a ser o desafio para quem quer relacionamentos lúcidos, reais e equilibrados.
O problema é que, quando envolvidos no enredo amoroso, quase sempre esperamos que este seja o definitivo, o último, como nos filmes com final feliz. E isso acontece até com aqueles que conseguem enxergar com lucidez, como meu estimado escritor barato.
A nossa tendência, humana e quase “natural” (não gosto nem um pouco dessa palavra, mas vá lá...), de buscar no outro um reflexo melhorado daquilo que somos, deixando sob sua responsabilidade preencher aquilo que nos falta, leva invariavelmente à criação das expectativas. Não se pode negar que - para a maioria dos homens e mulheres criados com a visão do amor romântico como ideal de felicidade, incluindo esta que agora escreve - quando estamos preenchidos pelo desejo amoroso, pela emoção do encontro, é extremamente difícil não se deixar levar pelas expectativas, pelo sonho, pelo desejo infantil de ter todas as nossas carências e necessidades supridas pelo outro, que nos amará incondicionalmente...
É nessa hora que acabamos percebendo que nossa aura de modernidade, que considera os relacionamentos amorosos não um fim em si mesmo mas apenas uma pequena parte da sua evolução pessoal, acaba dando lugar aos comportamentos óbvios e esperados do ser apaixonado.
Ah, meu caro escritor barato, o verbete da letra R é teoricamente lindo...Racionalmente aceito muito bem que contos de fadas não existem, mas sim a possibilidade de romances divertidos, intensos e marcantes, e que pretensões menores geram decepções menores. Mas será que você não teria aí um manual para emprestar, que treine o ser apaixonado a não criar expectativas, relaxar e gozar????
Janaina Ferreira
09/08/2010
Como água para chocolate
"...Mais ainda, deixe-me dizer-lhe uma coisa que não confiei ainda a ninguém. A minha avó tinha uma teoria muito interessante, dizia que embora todos nasçamos com uma caixa de fósforos no nosso interior, não os podemos acender sozinhos, precisamos, como na experiência, de oxigênio e da ajuda de uma vela. Só que neste caso o oxigênio tem de vir, por exemplo, do hálito da pessoa amada; a vela pode ser qualquer tipo de alimento, música, carícia, palavra ou som que faça disparar o detonador e assim acender um dos fósforos. Por momentos sentir-nos-emos deslumbrados por uma intensa emoção. Dar-se-á no nosso interior um agradável calor que irá desaparecendo pouco a pouco conforme passa o tempo, até vir uma nova explosão que o reavive. Cada pessoa tem de descobrir quais são os seus detonadores para poder viver, pois a combustão que se dá quando um deles se acende é que alimenta a alma de energia..."
De Laura Esquivel em "Como Água para Chocolate"
De Laura Esquivel em "Como Água para Chocolate"
quinta-feira, 29 de julho de 2010
Mudar é bom
Li hoje a coluna de um jornalista da revista Época que costumo acompanhar, o Ivan Martins, que começou a me chamar a atenção logo pelo título “Reencarnar é bom” . Confesso que estranhei aquele tema, e fui ler o texto. Acho que eu e o Ivan temos uma ligação espiritual, porque é impressionante o timming dele de escrever antes sobre um assunto que eu ainda estava “matutando”...rs
No fundo acho isso ótimo, porque me impele a colocar logo no papel ( ou na tela) meus pensamentos, sem ficar enrolando e deixando para lá textos que eu gostaria de ter escrito.
Bom, o Ivan trata de mudanças, de transformações pessoais, que no caso dele são sempre catalisadas pelas relações amorosas. Também ando querendo muito falar de mudanças, mas no meu caso as novas vidas não estão ligadas inexoravelmente à relacionamentos amorosos, ainda que possam passar por esse campo também. E vou pegar como mote uma frase do próprio texto: “Talvez a ideia de mudar constantemente incomode algumas pessoas, mas a mim dá um enorme conforto. Às vezes tenho um pesadelo no qual estou no mesmo emprego, na mesma casa e na mesma relação de 20 anos atrás – e acordo apavorado.”
Há dois meses dirigia meu carro vindo de Brasília em direção a BH, com o restinho da minha “mudança”, acompanhada do meu pai. Durante os 740km conversamos um bocado, e uma das coisas que falamos foi que ambos ficamos surpresos em como uma pessoas pode viver 20 anos numa mesma cidade, na mesma casa, e achar aquilo normal...
O conceito de normal não existe, e o que é bom para mim não tem que ser necessariamente bom para você. Mas ficou, de qualquer maneira, o estranhamento em relação às pessoas que preferem ou que escolhem se acomodar num trabalho, numa casa, numa crença ou numa relação.
Não estou querendo dizer com isso que alguém não possa ser feliz mantendo um mesmo emprego, estilo de vida, endereço ou esposa a vida inteira. Quem sou eu para questionar as razões da felicidade de outra pessoa! O que me incomoda é a imutabilidade quando aquele emprego, endereço ou relação não te traz mais brilho, renovação, coragem, disposição, felicidade. Mas em troca da acomodação, do aprendido, do conhecido e da segurança, parece faltar coragem para mudar. E essa falta de coragem está ligada ao medo do desconhecido, do novo e também, invariavelmente, ao medo do sofrimento.
Há 3 anos escrevi um textinho, pensando em uma amiga que naquele momento mudava de país e também nas inúmeras vezes em que eu fiz as malas. Esse texto terminava assim: “A delícia do novo, do inesperado,de crescer como pessoa, supera com folga a dor de deixar uma parte de nós para trás.”
Naquele momento eu falava das mudanças de cidade, de casa, de país, mas acredito que essa frase valha para qualquer tipo. Mudar é sempre escolha e renúncia. O velho tem que ceder seu lugar para que o novo se estabeleça e isso significa, sempre, deixar uma parte de nós para trás. Mesmo que seja algo do qual queremos ou precisamos nos desfazer, será sempre parte de quem somos, ou fomos um dia. Então a dor, o medo, as inseguranças, são parte do processo. É doloroso deixar para as crenças que nos acompanharam por tanto tempo, como é doloroso deixar a casa da infância, os amigos conquistados, o amor que um dia nos fez tão feliz.
O Ivan fala que, para ele, reencarnar não é morrer e nascer de novo em outra vida, mas renascer nessa vida. Só posso concordar. A capacidade de se reinventar num novo trabalho, numa nova cidade, em uma nova relação, é o que nos faz vivos e viver, como dizia Guimarães Rosa, é perigoso. "E o que a vida espera da gente é coragem".
* Essa crônica é dedicada ao meu amigo-irmão Eugênio, que hoje renasce, na mudança mais importante(e esperada)da vida dele. Parabéns a você meu querido, e à Preazinha.
Imagem: http://document.linternaute.com/document/image/550/sport-canyoning-sports-salto-cap-162188.jpg
quarta-feira, 14 de julho de 2010
(des)Controlar
Existem pessoas que não conseguem viver bem se não tiverem a certeza de que as coisas, todas, não sairão de seu controle. Em casos extremos essas pessoas desenvolvem transtornos psicológicos, em outros apenas tem a vida dificultada por esse comportamento. Eu me encaixo no segundo caso...
Tenho uma imensa dificuldade em lidar com o imprevisível, o não planejado, em deixar as coisas ao sabor do vento. E isso em praticamente todos os setores da minha vida. Profissionalmente é até uma boa característica, porque a gente acaba sendo mais eficiente do que a maioria. Mas eficiência não é exatamente o que precisamos em outras áreas...
Não dá para controlar, por exemplo, os sentimentos dos outros por nós, sua disponibilidade, seu desejo. Nem o tempo, esse senhor de barbas brancas que tanto me assusta. Não é possível controlar a hora em que as coisas começam a morrer, sejam elas vontades, sentimentos ou mesmo nossos animais de estimação.
Aprender que nem tudo é previsível, planejável, tem sido mais uma batalha para mim. É claro que somos inteligentes o suficiente para SABER que existem coisas que fogem e fugirão sempre ao nosso controle. Mas o fato de SABER não significa conseguir realmente aplicar na vida essa consciência. Pessoas controladoras não conseguem diferenciar muito bem o que é passível de racionalizações, pesos e medidas daquilo que deve simplesmente seguir seu próprio curso, e a nossa tendência é sempre buscar uma saída na qual o mínimo de controle prevaleça.
O que fazer então quando se está diante de uma situação que não depende de nada que podemos fazer?
Honestamente, eu fico apavorada... As mãos começam a suar, milhões de coisas passam pela cabeça, a ansiedade me consome. Depois de muito quebrar a cara nessas situações e me deixar dominar pela ansiedade e pela sensação de impotência, tenho tentado algumas “saídas”...
Para mim, a primeira coisa a fazer é reconhecer que a necessidade de controle faz parte de quem você é e aceitar isso, sem ver como uma coisa totalmente negativa, usando a seu favor quando é necessário, mas sem se deixar “dominar” por esse padrão. Ter consciência já é um começo e tanto.
Ai vem a parte difícil, aprender a relaxar...
Quem tem necessidade de controle geralmente é mais racional do que emocional, então a idéia é apelar para o racional também para lidar com a consciência de que não dá para conter sempre o rio...
Ultimamente andei aprendendo umas lições muito válidas sobre programações cerebrais e mudanças de padrões e comportamentos. Ainda não consegui aplicar essas lições em todos os padrões que precisaria alterar, mas tem sido um exercício muito válido quando se trata de controle.
E assim vou fazendo: Olho para a situação que está me deixando desesperada porque não consigo planificar ou moldar à minha maneira e, consciente e racionalmente, começo a pensar em como pode dar certo sem minha atuação, sem que eu coloque dentro de uma das minhas caixinhas numeradas. Não penso no que pode dar errado porque o não, como diz um amigo meu, está sempre garantido.
Então tiro a barragem que construí e deixo o rio fluir. Ele tem seus modos, seus próprios caminhos, suas vontades. Seu jeito de correr em direção ao mar pode não ser igual ao que tracei, mas no fim, o mar estará lá. Porque se existe uma verdade que aprendi a aceitar é que no fim tudo dá certo, e se não deu certo é porque ainda não terminou...
Confesso que não é fácil perceber que até mesmo o tal do “destino” pode resolver dar palpite, mas mesmo assim tem sido uma sensação libertadora...
terça-feira, 13 de julho de 2010
Palavras emprestadas - "A vida é nada", por Gabriel Louback
O blog é um espaço pra publicar meus pensamentos, mas às vezes pego algumas palavras emprestadas.
Essas são do Gabriel Louback, que tem um blog que conheci hoje. Estava escrevendo sobre o mesmo tema, mas depois da beleza do texto dele perdeu um pouco o sentido continuar...rs
"A vida é boa. As crianças sorriem de graça para mim. Não preciso fazer careta, nem me esconder e aparecer de repente. Parece que sou um daqueles personagens de “Onde Vivem os Monstros”, que parecem assustadores para as pessoas grandes, mas que são apenas um bicho de pelúcia gigante para as pessoinhas. Elas sorriem e retribuo não por educação, mas por ser inevitável. O sorriso delas me faz sorrir."
Pra continuar a ler, clique aqui.
Essas são do Gabriel Louback, que tem um blog que conheci hoje. Estava escrevendo sobre o mesmo tema, mas depois da beleza do texto dele perdeu um pouco o sentido continuar...rs
"A vida é boa. As crianças sorriem de graça para mim. Não preciso fazer careta, nem me esconder e aparecer de repente. Parece que sou um daqueles personagens de “Onde Vivem os Monstros”, que parecem assustadores para as pessoas grandes, mas que são apenas um bicho de pelúcia gigante para as pessoinhas. Elas sorriem e retribuo não por educação, mas por ser inevitável. O sorriso delas me faz sorrir."
Pra continuar a ler, clique aqui.
domingo, 4 de julho de 2010
Volver a los 17
Sempre achei que eu fosse diferente da maioria, por não ter aqueles sonhos femininos comuns: príncipe encantado, família perfeita, amor de conto de fadas. Na teoria sempre acreditei que um relacionamento real, maduro e completo prescindiria de projeções, devaneios, dramas, desencontros e dores. Que o sofrimento, as dificuldades e obstáculos não fariam necessariamente um amor maior ou mais bonito do que outro. E não poderia ser diferente, sou uma mulher muito mais racional do que emocional.
(Aqui cabe um parênteses para explicar: para quem lê meus textos isso pode parecer estranho e contraditório, mas acreditem-me, é a mais pura verdade. A razão é meu norte, não a emoção, mesmo eu sendo uma manteiga derretida que chora no Museu da Língua Portuguesa enquanto escuta poesia...)
Como o racional predomina em mim, achava natural não desejar as emoções avassaladoras, as paixões arrebatadoras, os sentimentos descontrolados, e gostar da idéia do "amor maduro", Fruta boa, como na música do Milton:
"É pequeno o nosso amor, tão diário
É imenso o nosso amor, não eterno
É brinquedo o nosso amor, é mistério
Coisa séria mais feliz dessa vida..."
Mas o que fazer quando as coisas em que você acredita por tanto tempo vêm e te dão uma rasteira? Um observador atento me diria que manter pensamentos cristalizados, acomodar-se num padrão, não é um bom caminho, uma hora ou outra a rasteira vem...
Você era tão racional e de repente: Coração disparado, as mãos suando, os sonhos que se repetem com um mesmo enredo. Todas as músicas parecem falar para você, de Ana Cañas a Madeleine Peyroux, passando até por Roberto Carlos...Claro que são sensações conhecidas, afinal você já teve dezessete anos e naquela época tudo era over, mas na curva dos trinta você esperava que as coisas fossem diferentes e que com a maturidade também os sentimentos fossem mais serenos...Ledo engano!
O turbilhão de emoções é aquele mesmo, a diferença está em como encarar a onda que vem e que desorienta, muda o rumo das coisas, leva embora o que passou e o que estava estagnado e enche a alma de novidade.
O mais curioso é que a tendência é reagir como aos dezessete, quando éramos inseguros, imaturos e com uma bagagem emocional que caberia numa nécessaire...Você fica sem reação, não sabe se liga ou não liga, fica construindo um monte de castelos no ar, e no final das contas não consegue lidar com o emaranhado de emoções sem sofrer.
O desafio de se apaixonar quando estamos mais maduros está em nos deixar envolver e viver sem perder a leveza. Ao contrário de quando tínhamos dezessete, aos trinta e poucos somos mais seguros dos nossos desejos e com muito mais bagagem emocional, o que nos permitiria entender os silêncios e as pausas, o tempo do outro, suas necessidades e até mesmo as ausências sem que isso significasse o fim do mundo.
A questão é que nem sempre nos lembramos que temos trinta e poucos e costumamos acionar a máquina do tempo para voltar aos dezessete e sofrer, chorar, lamentar a ausência, buscar significados inexistentes nas entrelinhas. E ai o que fazer?
No meu caso, aciono o botãozinho da racionalidade, dosada com um pouco de intuição, e trato de pensar que tudo “é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta, e o coração tranqüilo”.
Fácil? Não, nem um pouco. Mas ai também está outra coisa que a gente aprende com a maturidade: viver os sentimentos de maneira consciente, profunda e verdadeiramente, não é tarefa fácil para ninguém, seja aos dezessete, aos trinta ou aos cinqüenta.
Então talvez o melhor negócio seja continuar como aprendizes, vivendo cada emoção como se fosse a primeira, dosando a cabeça dos trinta e o coração dos dezessete...
Belo Horizonte 30/06/2010
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