sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
Palavras Emprestadas - Janaína do Arocá, Iemanjá-menina, por Daniel Abreu
Procura-se um amor
Fora de época,
Que provoque calor,
Sentimentos de uma dor incerta.
Procura-se alguém
Tão meio sozinho.
Alguém que me ache,
Que me faça voar pra fora do ninho.
Mas palavras são meias palavras,
Nada mais, nada mais.
E o homem que vive num conto de fadas,
Nada faz, nada faz.
Janaína,
Princesa do Arocá,
Te faço uma piscina
Pra evitar o mar.
Assim, numa boa
Podemos namorar,
Eu sobre uma canoa
E você a mergulhar.
Janaína,
Iemanjá-menina,
Ensina-me a nadar
E chegar aos braços teus,
Que eu te mostro o que é amar.
Mas palavras são meias palavras,
Nada mais, nada mais.
E o homem que vive num conto de fadas,
Nada faz, nada faz.
Janaína,
Rainha do mar,
O que pensam papai e mamãe
De a gente se casar.
Pássaro com peixe,
Ninguém sabe o que vai dar,
Mas o importante é o desfecho
Que o amor vai nos levar.
Janaína
Da imensidão azul,
Não chorais um mar de lágrimas
De temer a solidão,
Que eu aqui só tô pá tu.
Mas palavras são meias palavras,
Nada mais, nada mais.
E o homem que vive num conto de fadas,
Nada faz, nada faz...
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
Insônia e paz
Então, numa noite qualquer, ao se deitar para dormir, você sente que tudo está no seu devido lugar.
Estende um olhar para si e compreende que as coisas buscadas lá fora sempre estiveram dentro de você, ao alcance da mão. O castelo construído nos sonhos não é tão brilhante e atraente quanto aquele em que você já morava, mas seus olhos, acostumados, tinham se esquecido de admirar.
Entende que todo o drama e aquela dor que duraria a vida inteira não passaram de mais um pequeno aprendizado, ao lado de tantos outros.
Que seu coração não é de adamantium - porque permite ser partido- mas de um material flexível, maleável, adaptável e, acima de tudo, autocicatrizante, igual ao espírito humano.
Entende que o modo como você vive seus desejos, sonhos, prazeres, frustrações, escolhas, é seu e somente seu, ninguém pode lhe mostrar o melhor caminho, porque o perfeito para o outro não necessariamente vai ser a melhor estrada para você.
E perde o sono mais uma vez, diante de toda a compreensão. Porque no fundo é assim que funciona essa nossa vida: algumas noites as perdemos na confusão dos sentimentos, outras em sua clareza.
Creio que as escolhas que fazemos dão a real medida de nossa grandeza. Nesse momento sinto como se tivesse aberto uma grande porta e entendido, finalmente, quão longe as escolhas me levaram e quanta grandeza trouxeram.
Sou grata, muito grata.
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
Sobre luto, dor e a ditadura da felicidade
"Deixa em paz meu coração/
que ele é um pote até aqui de mágoa/
E qualquer desatenção/faça não/
Pode ser a gota d'água"
(Chico Buarque - Gota d'agua)
Você tem uma vida ótima! Não lhe falta nada, sua carreira está estabilizada, você paga suas contas, tem bons amigos, se diverte, ama, seu pai e sua mãe estão bem, tudo é perfeito! A vida é linda, o sol sorri para você toda manhã, há beleza em todas as esquinas. Então porque diabos você não está feliz?
Pessoas assim não têm o direito de, mesmo momentaneamente, ficar tristes. Infeliz então, é impossível. Sofrimento ou dor emocional, sem chance. Você não é uma criança abandonada, você não passa fome, você não está numa zona de guerra, você não tem uma doença grave, você não perdeu um braço, uma perna, a visão. Então, decididamente, você DEVE ser feliz. O tempo todo.
Nada do que escrevi acima é mentira. A minha vida, a sua vida, a vida da maioria das pessoas que convive conosco é assim, "perfeita".Pouquisssimos do meu círculo tem problemas realmente "graves". A felicidade aqui deveria ser compulsória. Mas não é. E não é simplesmente porque cada um vive o contentamento à sua maneira. Cada um elabora os lutos, as dores, sofrimentos e perdas no seu próprio tempo, independente da dimensão que eles tem para os outros. São as suas dores, é o seu luto, e só você é capaz de dimensionar o quão dificil é.
Semanticamente creio que o antônimo de felicidade deveria ser infelicidade e não tristeza. O contrário de tristeza é alegria. Não é porque vivo intensamente, meus lutos, dores, perdas, sofrimentos, que sou infeliz, apenas não estou feliz naquele momento. Mas isso não faz nenhuma diferença aqui, porque a ditadura da felicidade compulsória parece não se importar. O dia todo, todos os dias, lá estão as frases, a publicidade, as fotografias, os amigos (até eles) que não querem te deixar esquecer que sua vida é perfeita e você tem a obrigação de ser/estar feliz.
Eu concordo que nos lamentamos por coisas pequenas, transformamos insatisfações em problemas, problemas em dramas, porém com tempo e distanciamento conseguimos, quase sempre, dar a devida dimensão a tudo que um dia nos afligiu, provocou dor ou sofrimento. Acontece que quando se está no olho do furacão fica difícil fazer o jogo do contente, brincar de Pollyana. E não são as razoáveis "opiniões" racionais que vão dar conta de mudar esse estado.
Cada um sabe onde seu calo aperta, e às vezes aperta mesmo descalço, ainda parecendo aos olhos dos "outros" totalmente absurdo. Mas é o seu calo, o seu luto, o seu sofrimento, a sua dor. Uma hora vai passar, cedo ou tarde sempre passa (e a gente até pode se ajudar tentando ser um pouquinho menos apegado, menos dramático, mais consciente, olhando com olhar crítico o que nos causa aquele sentimento, nos deixa naquele estado).
O que não dá para fazer é esconder de si mesmo a dor, mesmo pequena, trancar na gaveta mais escondida do armário o sofrimento, obrigar a tristeza (ainda que momentânea) a se converter numa falsa alegria, apenas porque andaram dizendo por ai que você tem a obrigação de ser feliz, ou então que a vida é perfeita como é, tudo é aprendizado , desapego é o único caminho para se compreender a impermanência de tudo.
Cada pessoa tem seu tempo, suas reações, o que fala ou cala mais fundo no peito. Não existe fórmula mágica para curar as aflições da alma, sejam elas provocadas pela morte de alguém que amamos, pelo desejo irrealizado, pelos erros cometidos ou ou pelo fim de um amor. Assim como não deveria existir a obrigação de ser feliz o tempo todo. Acima da ditadura da felicidade compulsória e da alegria imposta, a gente precisa é se aceitar e repeitar nosso próprio tempo e necessidade do luto.
E ai talvez dê pra caminhar como sugeria o Caio Fernando Abreu:
"Tomara que a gente não desista de ser quem é por nada nem ninguém deste mundo. Que a gente reconheça o poder do outro sem esquecer do nosso. Que as mentiras alheias não confundam as nossas verdades, mesmo que as mentiras e as verdades sejam impermanentes. Que friagem nenhuma seja capaz de encabular o nosso calor mais bonito. Que, mesmo quando estivermos doendo, não percamos de vista nem de sonho a ideia da alegria. Tomara que apesar dos apesares todos, a gente continue tendo valentia suficiente para não abrir mão de se sentir feliz" ...
Foto: http://www.vithais.com.br
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Chuva
Esta manhã as nuvens estavam acinzentadas.
E o céu, tão próximo, claustrofóbico.
A chuva teimava em não cair, diferente daquela dentro de mim.
Represada, não encontra o lugar certo para escoar.
Chove aqui dentro, torrencialmente.
Às vezes tento simplesmente dissipar as nuvens, com artifícios que simulam o forte vento.
Isso não consegue mandá-las para muito longe. A chuva continua.
Todos os cantos estão úmidos e sinto que minhas paredes não suportarão por muito tempo a enchente.
É tanta água que daria para regar centenas de jardins.
É tanta água que matou sementes que poderiam ter florescido, se eu tivesse aprendido como parar de chover.
Agora o sol está lá fora, as nuvens se foram e o céu retomou seu devido lugar, longe, alto, libertador.
Mas aqui dentro o barulho ainda é de chuva no telhado.
E a previsão: muita nebulosidade durante todo o período.
Oxalá toda essa chuva se transforme no sal das lágrimas,
e eu consiga (queira) logo entardecer como o dia, claro, brilhante e solar...
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
Netiqueta
Muitos de vocês já devem ter recebido um texto por e-mail, cuja autoria é atribuída a Carlos Drummond de Andrade, chamado Viver não Dói. Como dezenas de outros textos que circulam na net, esse também teve sua autoria indevidamente creditada ao autor errado.
Quem conhece Drummond, de cara lê e questiona a autoria. Mas a maioria das pessoas não conhece Drummond tão bem assim, ou Fernando Pessoa, ou Clarice Lispector, ou Mário Quintana, entre tantos outros, e cita desavisadamente nos seus blogs, Facebook ou Twitter frases, aforismos, poemas, crônicas atribuídos a esses e outros autores, ou ao maior de todo os escritores workaholics: o famoso Autor Desconhecido.
Logo que comecei esse blog escrevi sobre isso, o uso indevido de um texto sem crédito ou creditando a autoria a outra pessoa. Nada de errado se achamos bonito, inspirador, emocionante um determinado texto e queremos compartilhá-lo. Errado é não termos cuidado com a citação, a reprodução de um texto e os devidos créditos.
A internet há muito se tornou uma espécie de "deserto de ninguém", e há até quem defenda que "caiu na rede, virou domínio público". A coisa não pode ser bem assim, devemos, minimamente, ter o cuidade de citar a fonte, o autor daquela frase ou texto ( coisa que muita gente não faz, em especial no Facebook ou Twitter) e, mais ainda, verificar se aquela autoria atribuida é ou não real, e nisso o google ajuda bastante.
Porque esse cuidado? Por uma questão de ética, de consideração, de bom senso, gentileza, coisas que ultimamente andam relegadas a segundo plano nessa nossa grande rede virtual. Eu mesma caí numa dessas, como já falei aqui no blog.
Tenho o hábito de postar textos de terceiros, em especial poesias de autores conhecidos. Nesse caso, uso um título para o post (Palavras emprestadas), e sempre o nome do texto e o autor. E verifico em todas as fontes possiveis se o poema ou crônica que estou postando realmente foi escrito por aquela pessoa.
Quando se trata de textos retirados de outros blogs, sempre peço autorização para copiar, cito a fonte ou, quando me pedem, cito apenas uma parte e direciono para o blog original, com um link para "ver mais".
Isso é o mínimo que podemos fazer. Não dá para esquecer que muitos "blogueiros" são escritores que vivem dos seus blogs, seja através de clicks, seja porque os textos são "encomendados" por um determinado patrocinador. Se você simplesmente copia aquele texto no seu blog, Facebook ou Twitter, pode estar prejudicando alguém que vive disso e, inclusive, ferindo os direitos do autor, o que pode ser crime.
Então, meus caros amigos, vamos ter mais cuidado, tanto ao citar com a autoria correta, quanto ter a gentileza de consultar o autor , no caso de textos extraídos de sites ou blogs, se este nos dá a permissão de copiar seu texto.
terça-feira, 4 de outubro de 2011
Palavras Emprestadas - A poética de Manuel Bandeira
Nú
Quando estás vestida,
Ninguém imagina
Os mundos que escondes
Sob as tuas roupas.
(Assim, quando é dia,
Não temos noção
Dos astros que luzem
No profundo céu.
Mas a noite é nua,
E, nua na noite,
Palpitam teus mundos
E os mundos da noite.
Brilham teus joelhos,
Brilha o teu umbigo,
Brilha toda a tua
Lira abdominal.
Teus exíguos
- Como na rijeza
Do tronco robusto
Dois frutos pequenos -
Brilham.) Ah, teus seios!
Teus duros mamilos!
Teu dorso! Teus flancos!
Ah, tuas espáduas!
Se nua, teus olhos
Ficam nus também:
Teu olhar, mais longe,
Mais lento, mais líquido.
Então, dentro deles,
Bóio, nado, salto
Baixo num mergulho
Perpendicular.
Baixo até o mais fundo
De teu ser, lá onde
Me sorri tu'alma
Nua, nua, nua...
Quando estás vestida,
Ninguém imagina
Os mundos que escondes
Sob as tuas roupas.
(Assim, quando é dia,
Não temos noção
Dos astros que luzem
No profundo céu.
Mas a noite é nua,
E, nua na noite,
Palpitam teus mundos
E os mundos da noite.
Brilham teus joelhos,
Brilha o teu umbigo,
Brilha toda a tua
Lira abdominal.
Teus exíguos
- Como na rijeza
Do tronco robusto
Dois frutos pequenos -
Brilham.) Ah, teus seios!
Teus duros mamilos!
Teu dorso! Teus flancos!
Ah, tuas espáduas!
Se nua, teus olhos
Ficam nus também:
Teu olhar, mais longe,
Mais lento, mais líquido.
Então, dentro deles,
Bóio, nado, salto
Baixo num mergulho
Perpendicular.
Baixo até o mais fundo
De teu ser, lá onde
Me sorri tu'alma
Nua, nua, nua...
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
Romance e Crônica
Finalmente ele entendeu: enquanto escolheu viver sua vida como um romance, uma novela de Emile Brontë ou Jane Austen, a escolha dela fora viver como um mesmo personagem em várias histórias – e transitava em todas com a mesma desenvoltura. Ultrapassava as páginas, indo de um capítulo ao outro sem nenhum constrangimento, explorando as camadas do tempo e do espaço, o personagem central de um estudado e elaborado livro de crônicas sem final.
Por muito tempo ele tentou acompanhar a liberdade daquele outro estilo literário, deixando para trás a linearidade que tanto prezava, o começo, o meio e o final de cada história, para viver o turbilhão criativo da musa, aquela que ele desejava fosse um dia a heroína somente do seu romance.
E tanto ajeitou suas páginas para encaixarem no livro de crônicas que até parecia adaptado, aventurando-se naquele mundo tão diferente para, quem sabe, poder se tornar parte das histórias dela. Mas são poucos os autores que conseguem ser bons nos dois estilos...
Um dia ele acordou e percebeu que não era realmente um personagem com características definidas, mas apenas um borrão, um esboço de quem fora, a sombra do homem que vivia escrevendo seu próprio romance. Entendeu então que o livro terminara, sem final feliz. E sua musa, sua Calliope, acostumada a circular por capítulos diferentes como se cada um fosse uma história acabada, não hesitou em encerrar aquela crônica, que desde o ínicio tivera sua morte anunciada, com a frase mais temida: e não foram felizes para sempre.
Só restaram as páginas amareladas daquele capítulo escrito a dois, que ele inutilmente tentara trazer para sua novela...páginas que agora, depois de toda a tempestade, traziam impressas apenas lindas e vazias palavras ao vento.
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