domingo, 22 de agosto de 2021

Sobre Paris, Texas.

 



O filme da minha vida foi dirigido por Wim Wenders. E por causa dele, aos 16 anos comecei a buscar todas as suas obras que existiam nas locadoras (sim, sou desse tempo) e depois os que passaram em festivais a que tive acesso na juventude. Entre os filmes de Wenders que assisti dos 16 aos 25 anos, até finalizar minha obsessão com Hotel de um milhão de dólares, esteve Paris Texas.

Salvo engano, tinha uns 18 anos quando o assisti, porque peguei na locadora e acho que ainda era VHS... Não me lembro de ter revisto depois disso e tinha apenas algumas lembranças enevoadas sobre o filme. Mas duas eram bem nítidas: Se tratava de uma história de amor e a Natassja Kisnki era, junto com Isabella Roselini, uma das mulheres mais lindas que já tinha visto no cinema.

Esse texto não será uma crítica do filme, mas sim uma visão pessoal com alguns toques de cinefilia que vem se intensificando graças às discussões semanais com meu grupo de cinema. 

O primeiro ponto que deve ser comentado é, obviamente, a ficha técnica desse filme. Além da direção primorosa de Wenders, o mais americano dos diretores alemães, a fotografia de Robby Müller (que colaborara antes na trilogia de road movies), o argumento do dramaturgo e ator Sam Shepard e a trilha sonora de Ry Cooder foram  elementos que levaram o filme a se tornar o sucesso de critica e público que foi na época e o mantém até hoje como um ícone para os cinéfilos. O deserto nunca foi tão belo quanto em Paris, Texas.

No inicio do filme, Travis (Harry Dean Stanton) caminha sem destino, na paisagem árida do Texas, o que já revela o quão vazio e desesperançado está o personagem.  Ao ser “resgatado” pelo irmão Walt (Dean Stockwell), ficamos sabendo que Travis está desaparecido há quatro anos, e que Walt procurou por ele sem sucesso. Travis parece perdido, sem compreender o que está acontecendo, apesar de aparentemente se lembrar do irmão, que tenta trazê-lo para a realidade, conversando, fazendo perguntas sobre onde ele esteve nesses anos e o que aconteceu, sem conseguir respostas. Após o “resgate”, Travis ainda tenta retornar à sua caminhada em direção ao nada, para novamente ser trazido pelo irmão de volta à realidade. Temos nessa introdução uma boa visão do personagem, como alguém perdido, sem rumo e vazio, como o olhar de Richard Dean Stanton consegue expressar sem que palavras sejam necessárias.

Estamos em um road movie. Portanto, as cenas do carro em movimento, a paisagem vista da janela e os diálogos entre os personagens enquanto viajam, tanto no primeiro quanto no segundo ato, são amalgamados por Wenders de uma maneira absolutamente orgânica e Travis, seguramente, está em seu habitat ao volante do carro percorrendo o deserto.

Travis parece desmemoriado e apenas pouco a pouco vai abrindo espaço para lembranças que, vamos entender mais a frente, oculta de si mesmo. Quando conhecemos a cidade que dá titulo ao filme por meio da fotografia que Travis carrega, entendemos que sua “amnésia” é seletiva e a perda de memória é na verdade uma defesa do personagem, por não ser capaz de explicar, ou justificar, seu desaparecimento e o abandono do filho Hunter. Novamente o olhar perdido e desalentado do personagem fala muito mais do que qualquer diálogo seria capaz.

Mais do que os diálogos, são os silêncios, gestos e olhares que nos ajudam a perceber os personagens e suas dinâmicas como, por exemplo, a intimidade que havia entre os dois irmãos no passado. E quando Walt, com impaciência, diz a Travis que também é capaz de ficar em silêncio, apesar de por várias vezes insistir em saber o que o fez desaparecer, temos a deixa para compreender que seu amor pelo irmão é capaz até mesmo de calar a frustração, como ocorrerá no fim do primeiro ato, quando Hunter parte com Travis.

Já a relação de Travis com o filho vai sendo lentamente (re) construída nos dois primeiros atos, e se revela de uma maneira muito doce quando Hunter se despede de Walt dizendo boa noite, papai (good night daddy) e de Travis, com boa noite Pai (good night Dad), ou ao explicar para o colega da escola que aquele homem engraçado de terno e chapéu era “o irmão do papai e meu pai” e dizendo que tem dois pais porque talvez tenha sorte (confesso que lágrimas apareceram nessa cena). Vemos essa relação se fortalecendo e a intimidade se formando na viagem de carro, quando a cor vermelha, característica de Travis, aparece nas roupas de Hunter.  Aliás, a cor vermelha, claramente representando a paixão de Travis, começa timidamente no boné do protagonista e vai tomando conta do filme até culminar na luz vermelha que o cerca ao reencontrar Jane e compreender finalmente onde aquela paixão o levou.

Chegamos então ao terceiro ato, quando somos apresentados a Jane, a mãe de Hunter, e aos motivos do abandono do garoto e do desaparecimento de Travis.

Quando Travis finalmente a encontra, somos levados a pensar que talvez o problema tenha sido o comportamento dela, afinal, é ela que está em um local “suspeito”, e Travis pergunta se sai com homens fora dali, o que ela nega. Mas é fácil para o espectador imaginar: Jane é tão bonita e jovem, Travis tão mais velho, não seria de se estranhar que fosse prostituta, por exemplo, e que esse tivesse sido o motivo da separação e do abandono.

A verdadeira explicação só nos é dada nos 15 minutos finais: Um Travis extremamente violento, a depressão pós-parto, um relacionamento doentio, permeado por ciúmes e insegurança e uma Jane totalmente submetida, para quem a única saída foi, num momento de descuido, fugir como o filho e entregá-lo aos tios para que, sozinha, finalmente conseguisse realmente escapar da fúria de Travis. 

Nesse ponto, um gosto amargo ficou na minha boca, com o qual ainda estou lidando: a forma como essa história nos é narrada, pois Travis a conta em terceira pessoa, escondido atrás de um espelho. Wenders conduz a cena de uma forma que o espectador se compadeça dele. Apesar de fazer sentido que se esconda, pela culpa e pela vergonha que provavelmente o fizeram se perder e começar a caminhar sem rumo, como o encontramos na primeira cena, a sensação que tive foi de que Travis, ao entregar Hunter para Jane e ir novamente embora como um cavaleiro solitário, encontra redenção, terminando o filme como um herói.

Quando Travis está contando para Jane a história “do casal que ele conheceu”, ela aos poucos vai reconhecendo, sejam as referências, seja a voz do ex-marido, temos o monólogo que revela todo o brilho do roteiro de Sam Shepard e a interpretação absolutamente entregue de Natassja Kinski, que vai demonstrando em seu rosto o medo, a tristeza e até mesmo o amor que um dia viveu nela: 

Eu costumava fazer longos discursos para você. Eu costumava falar com você o tempo todo, embora estivesse sozinha. Passei meses conversando com você. Agora, não sei o que dizer. Era mais fácil quando eu apenas imaginei você. Até imaginei você falando comigo. Teríamos longas conversas ... nós dois. Era quase como se você estivesse lá. Eu pude te ouvir. Eu podia ver você, sentir seu cheiro. Eu podia ouvir sua voz. Às vezes, sua voz me acordava, no meio da noite, como se você estivesse no  quarto comigo. Então, lentamente desapareceu. Eu não conseguia mais te imaginar. Tentei falar em voz alta com você como costumava fazer, mas não havia nada lá. Eu não podia mais  te ouvir. Então, eu simplesmente desisti. Tudo parou. Você ... simplesmente desapareceu. Agora estou trabalhando aqui. Eu ouço sua voz o tempo todo. Todo homem tem sua voz.

Todo homem tem sua voz. Essa fala na boca de Jane, da forma como Wenders dirige a cena, soa como uma mulher que se recorda de um amor, e parece que esse amor nunca morreu. Mas para qualquer mulher que foi abusada, tratada com violência, que esteve numa relação tão abusiva quanto a de Travis e Jane, essa sensação de “todo homem tem sua voz” é apavorante.

Há sentimentos contraditórios em mim: Como continuar a gostar tanto de um filme que, num primeiro olhar, romantizaria uma relação abusiva? Fiquei um tempo pensando nisso e fui procurar criticas que tivessem feito referência ao assunto. Sem surpresas ao verificar que NENHUM crítico brasileiro que escreveu sobe o filme falou sobre o relacionamento abusivo, nem superficialmente. Na busca por criticas em inglês e francês, a mesma coisa. “Coincidentemente”, só encontrei críticas escritas por homens... Nem mesmo em criticas atuais, dos anos 2010 em diante, há referências. Paris Texas é um cult movie por excelência, talvez por isso haja uma aura de reverência que impede a crítica de apontar certas questões, mas para mim o gostinho amargo ficou. Jane tem seu filho de volta e Travis volta para a estrada, mas esse não é um final feliz.

A resposta que encontro é, de certa maneira, perdoar Wenders e Shepard por terem criado Travis como um personagem que, por décadas, tem sido visto como o cara que tentou consertar seus erros. Em 1984, fazia sentido.

quinta-feira, 15 de abril de 2021

A Metamorfose dos Pássaros

 


A Metamorfose dos Pássaros (2020 - Portugal)

Direção e Roteiro: Catarina Vasconcelos

Elenco: Manual Rosa, João Móra, Ana Vasconcelos, Henrique Vasconcelos, Inês Campos, Catarina Vasconcelos


A primeira sensação que tive assistindo à Metamorfose dos pássaros é que o filme deveria fazer parte de alguma exposição permanente no Metropolitan Museum, numa tela bem grande, passando em looping, porque cada cena é uma pintura. Confesso que fiquei curiosa para saber se Catarina Vasconcelos e seu diretor de fotografia, Paulo Menezes, construíram aquelas composições, em especial as naturezas mortas e paisagens impressionistas do primeiro ato, baseadas em pinturas já existentes, porque me sentia admirando as paredes de algum dos tantos museus que já visitei. A diretora, em uma de suas entrevistas, confirmou minhas suspeitas: “Todo este lado que vem mais das artes plásticas foi muito importante e o filme não podia ter sido construído noutro sítio. Foram as soluções que encontrei para dar resposta a coisas que eu sentia”.

Os quadros que acompanham Beatriz e sua vida com os filhos, apesar de claramente terem as cores do passado, com seus tons terrosos, são quentes, acolhedores. Beatriz é a natureza, e mesmo sendo retratada com a composição das naturezas mortas (e isso não é desrespeitoso, pois já sabemos que se trata da história dessa mãe que se foi), Beatriz continua viva e presente até o minuto final.

Já as telas que pertencem a Henrique, ainda que igualmente belas, mantém o tom cinza azulado do mar e a melancolia que é impossível dissociar daquela vida distante do calor da amada. “Os marinheiros miram aquela linha que separa o mar do firmamento, pois se lembram que lá estão todos aqueles que amamos”

E o que dizer da memorável passagem depois da cena no rio, quando as pinturas que acompanharam Beatriz e Henrique vão dando lugar a outras telas, mais contemporâneas? Ali, na cena dos fantasmas no bosque, prendi a respiração, e começaram as lágrimas, que só pararam depois dos acordes finais da Sonata de Schubert.

“Os mortos não sabem que estão mortos. A morte é uma questão dos vivos. Ainda hoje não me lembro do dia, porque os dias onde algo tão grande acontece, como a morte de uma mãe, nunca se tornam memórias, eles ficam para sempre presos em nós, como sinais que nascem na pele para nunca mais sair, são demasiado dolorosos para habitar nosso cérebro, por isso os mantemos na pele.”

Ainda teremos as pinturas que acompanharão Jacinto e Catarina, a partir da tela em branco que inicia a relação de pai e filha (que imagem, meus amigos, que imagem!), às vezes minimalistas como os olhos no espelho, outras vezes grandiosas como as montanhas, até chegar à composição final, o encontro definitivo do mar e da terra no pequeno barco. “Catarina vai ser bonito ver-te voar”

E se não bastasse a poesia imagética construída durante todo o filme, há também a poesia das palavras. A história de amor contada através das cartas que ninguém leu. A história da mãe que era árvore e em cujos ramos os filhos balançavam. A história dos cavalos marinhos, que trazem em si, como as mães, todas as memórias do mundo. A história do filho que sofria o terror dos colonizados e que vivia a falta de oxigênio “no país e nas pátrias imaginárias onde tudo tinha o nome daquele homem que sufocava aquilo que tocava”. O mesmo filho que se olhava no espelho e não se via a si, mas ao pó, e que por fim entendeu que o pó das molduras era a passagem do tempo e talvez o pó não tivesse sido em vão. A história da filha que não queria repetir a mesma sina das tomadas, fêmeas, que estavam presas às paredes da casa sem poder se mexer, e de quem dependia a ligação de tudo que importava, enquanto os plugues,machos, estavam livres para ir aonde queriam. A história dos filhos que, quando a mãe deixou de balançá-los em seus ramos, caíram todos no chão, sem saber como se levantar. “Eu nunca esquecerei como era ver o mundo empoleirado em seus braços”

Catarina Vasconcelos constrói uma afinada sinfonia de imagens, sons e palavras para falar sobre luto, amor, família, mãe, liberdade, a passagem do tempo e, até mesmo, sobre Salazar.

Há filmes que nos tocam pelo roteiro, histórias que conversam intimamente com nossas emoções. Outros porque os diretores são hábeis o suficiente para provocar essas sensações mesmo que o espectador não entenda como aquelas lágrimas chegaram ali.

E há aqueles que são beleza em estado puro. Esse é o caso da Metamorfose dos Pássaros. Tanta beleza que chega a doer.

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

I'm not Carrie anymore.

Eu costumava escrever. Achava que meu gênero literário eram as crônicas, porque falava (e escrevia) sobre temas “universais”: amores perdidos, solidão na cidade grande, uma mulher que não se encaixava nos padrões. Jurava que era Carrie Bradshaw... Mas e hoje, que diferença realmente faz ser Carrie Bradshaw? Aliás, quem é essa mulher, tantos anos (e bits) depois? 

Quando completei trinta anos, no meio de uma crise, a famosa crise dos trinta, falei sobre o assunto. Mas o ego era tão gigante que não entendi nada. Assim como Caetano: "Você não está entendendo quase nada do que eu digo, eu quero ir-me embora, eu quero é dar o fora, e quero que você venha comigo."

O problema é que não dava mais para ninguém vir comigo. E tampouco dava para ser aquela mulher, tipo Sex and The City, por mais que o convite fosse romântico e tentador.

Isso tudo terminou lá em 2005, e órfãs românticas foram deixadas para trás, suspirando com as reprises das histórias e esperando o resgate pelo príncipe encantado. Eu fui deixada para trás, felizmente.

Quem me resgatou? Eu mesma, e o feminismo.

Não me reconhecia feminista. Não entendia o que significava ser feminista, mesmo tendo lido Simone de Beauvoir.  Precisei de mais, mais do que entender academicamente. Mais do que as definições do dicionário.

Precisei entender que sororidade não era uma palavra vazia, mas palavra que  buscava garantir a solidariedade para quem era “irmã”.

Precisei sentir que meu discurso ecoava além da mera liberdade individual e liberal-feminista, para também entender que meu corpo, minhas regras era pouco, muito pouco, para garantir o meu, o nosso espaço, os mesmos direitos e, acima de tudo, a mesma liberdade. 

Amanheci e aprendi. Cresci. Floresci.

E nos últimos quinze anos passei a ter orgulho de dizer: Por mais que tenha um carinho especial pelas historias que escrevi, e vivi, não sou mais Carrie. Isso passou, e hoje sou só Janaina. 45 anos, livre, leve, feliz e...FEMINISTA. 

(A única coisa que não mudou foi a fé nas minhas amigas, essa só aumenta!)

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Na curva dos cinquenta

Hoje o Roger faz cinquenta.

Não são só cinquenta anos, acho de verdade que são cinquenta vidas. Aquelas que ele me conta foram tantas e tão diversas...

Tem a vida do menino que se viu homem na manhã em que seu pai se foi.

A vida do jovem da Floresta com seu um milhão de amigos, aquele que descia sem freio a rua Estevão Pinto e comprava briga no sinal, no bar, na esquina, onde calhasse (Foi nessa vida aí que o anjo da guarda dele, depois de perder todas as penas da asa, se aposentou.)

A vida daquele que, para defender os amigos, fazia de um tudo, inclusive quase levar seis tiros.

A vida do yogi, professor de meditação e vegetariano, que ia meditar por trinta dias em silêncio.

A vida do trilheiro, dos domingos derrapando no barro, dos amigos no Bar do Marcinho.

A vida de um dos maiores mulherengos que tive notícias e que deixou muitos corações quebrados pelo caminho (até onde sei, metade as amigas do facebook foram um pouco mais que amigas.😜😜😜😜)

A vida do mecânico de motocicletas, que só pelo barulho me diz a marca, o modelo, a cor, o nome e o ano da moto que para ao nosso lado no sinal.

A vida do existencialista e filósofo, com seu rogeísmo, que para alguns virou religião.

A vida do irmão, tio, padrinho, que na verdade sempre foi pai.

Tem a vida do samaritano, que ajuda a todos das formas mais diversas, até quando, para ajudar um amigo ou um desconhecido, tem que brigar com meio mundo.

A vida daquele que provoca sempre reações apaixonadas dos amigos, da família dos amigos, dos conhecidos e até daqueles que só por um minuto tiveram a sorte dele cruzar o seu caminho. Aliás, provocar reações apaixonadas é uma constante em todas as vidas dele.

Mas tem uma característica única em todas essas vidas e quem o conhece sabe que não estou jogando elogios ao vento: Roger é extraordinário. O comum, o simples, o banal, o medíocre, passaram a quilômetros luz de todas as suas vidas

Impossível não admirar esse homem, com seus olhos que enxergam muito mais e mais longe do que os nossos e com seu coração que sente a dor dos outros e acha que ela é sempre maior do que as próprias dores.

Impossível não respirar fundo e segurar a lágrima que teima em rolar vendo como ele luta no escuro e vence sempre, igual ao Demolidor.

Por fim, tem a vida que ele divide comigo. Com a paciência que a maturidade traz (e haja paciência para me aturar) e a alegria com que ele me olha todos os dias.  


Feliz Aniversário, meu amor!






segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Nayara faz trinta anos, ou “nossa, como a Nayara cresceu!” *

É bem verdade que outro dia ela era um bebê branquinho como o Miguel, que engatinhava atrás de chicletes no chão ( quanto mais pisados, mais ela gostava. Não se assustem, isso criou todos os anticorpos necessários para que ela não adoecesse fácil)...

É bem verdade que outro dia ela tinha três ou quatro anos e era a menina mais manhosa do mundo, daquelas de deitar no chão do supermercado e espernear , bater braços e pernas até ficar quase roxinha e não escorrer nenhuma lágrima...

É bem verdade que outro dia ela estava agarrada na saia da Niúra, a mãe menor dela, seguindo todos seus  passos com aquelas perninhas...

É bem verdade que  outro dia ela estava vestida de Spice Girl dançando no quintal com a Lud, a Milu e a Niúra.

É verdade também que coisa de uma semana atrás ela fez quinze anos, numa festa temporã, com direito a valsa e bolo, e troca de vestidos, e todos os amigos.

E é também verdade que ontem ela entrou na faculdade pra aprender a embelezar e cuidar das pessoas, e vejam só, mês que vem ela já se forma!

Opa...mas ela hoje está completando 30 anos...como pode? Se parece que foi  outro dia mesmo  que  entrei no Hospital da Asa Norte, pelas mãos do papai, junto com o Jaime para ver pelo vidro do berçário aquela  bebezinha  branquinha e pequenina? Se foi ontem mesmo que coloquei ela no colo com o macaquinho alaranjado, que ajudei a trocar a primeira fralda, que fui caminhando com ela pra escolinha, que ajudei nos castelinhos nas areias de Prado,  que levei ao cinema, que fiz o bolo para o aniversário? Opa...alguma coisa aconteceu, e eu nem percebi: Nossa, como  a Nayara cresceu! E apareceu, e continuou linda e amorosa , mesmo sendo garota enxaqueca as vezes...

Mais uma irmã completa trinta anos. E eu, quase na curva dos quarenta, olho para trás e só vejo aquela menina de cabelos dourados e vestidinho branco com frutinhas, fazendo pose que nem gente grande.

Quem disse mesmo que o tempo passa?

Feliz Aniversário, brancoila! Os trinta são muito legais, acredite ( mas acho que você já percebeu...)!

Um beijo da sua irmã maior.

*Ps: Sim Digão, a Nayara cresceu

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Não há lugar no mundo...


           115 anos de BH...Lembro-me tão bem da festa dos 100 anos, 1997, eu tinha 4 anos de cidade, ainda estava conhecendo suas ruas, praças e parques. Mas já era apaixonada pela sucessão de esquinas, cuja poesia não era nada dura nem concreta como a que canta Caetano de sua Sampa, mas sim cheia de redondilhas e rimas...

           A família desgarrada já tinha se reunido novamente e a cidade tinha nos recebido a todos de braços e coração abertos.

           Mas, como diz meu amigo Bruno , (que conheci exatamente nesse ano, na festa de encerramento do FIT especial BH 100 anos), minhas asas são muito grandes, e em 2003 sai daqui para tentar outros ares. Respirei, senti, mas meu coração sempre batia mais forte ao voltar para visitar a família, os amigos.

           Depois de um tempo sem lar, sem chão, voltei para minha cidade natal, Brasilia, achando que ali era o lugar de me encontrar. Foram 5 anos de idas e vindas a BH para chegar o momento de entender que, mesmo tendo nascido ali, naquele planalto amplo, minha alma já não pertencia à aridez e ao concreto, mas sim às montanhas, aos vales e cachoeiras que circundam a minha Belo Horizonte.

             E a cidade me recebeu de novo com o mesmo sorriso, e cá estavam os amigos que não se perderam, a família cada vez mais mineira, meu GALO, as ladeiras ( como gosto de ver as ladeiras...) as praças, parques, pães de queijo... E a cidade com uma vocação cultural incrível, me mostrando alegria, vivacidade, magia.

            Meu coração bate forte e feliz nessa cidade que me acolheu como os mineiros acolhem (depois que passa a fase da desconfiança, rsrsrs) e, apesar de meus amigos queridos de Brasília acharem ruim quando eu falo isso, hoje me considero 100% belohorizontina.

             Sei que minhas grandes asas ainda vão querer se abrir e alçar outros voos. Mesmo resolvendo partir para alguma outra aventura, já entendi que NÃO HÁ LUGAR NO MUNDO MELHOR QUE BH!!!!!!

              FELIZ ANIVERSÁRIO para essa cidade linda, minha casa, meu lugar no mundo.

Aos 115 anos de Belo Horizonte


Escrevi esse texto há exatos 6 anos, quando estava vivendo em Brasília, me sentindo muito perdida, sem casa, sem rumo. E com uma enorme saudade da minha BH...


Apaixonar-me

Em um episódio de "Sex and the City" a Carrie, cansada de não ser amada ou de não amar ninguém, descobre que seu mais longo e duradouro caso de amor é com a cidade de Nova York. Nesse episódio ela literalmente "namora" a cidade, vai a lugares que fazem parte da historia dela, senta em cafés sem estar acompanhada (não exatamente só, afinal ela esta com a cidade.), passeia pelo Central Park, e termina dizendo: se você ama Nova York, a cidade nunca te deixará sozinha.
Na minha atual fase, estou me sentindo muito Carrie, cansada de não amar ou ser amada, mas,  pra piorar, atualmente vivo nessa cidade com a qual, por mais que tente, não consigo ter nem um romance fugaz. Um caso de amor, então...
Ando pelas ruas (ou melhor, passo de carro.) e não consigo enxergar beleza ou poesia. Afinal, que poesia pode ter uma cidade sem esquinas???? Nesses dias, pra piorar, a chuva resolveu desabar e nem mesmo o famoso "céu de Brasília, traço do arquiteto" dá o ar de sua graça.
Tenho tentado, desde o início, viver Brasília, vê-la com olhos de filha dessa terra, entender o que se passa com quem ficou e gosta da cidade. Afinal, voltar para cá foi uma opção minha, sentia ser a hora de fazê-lo, pois minha vida estava sem norte e eu pensava que voltar pra casa, pra terra onde nasci, poderia me trazer chão, perspectivas. No quesito perspectivas não posso dizer que a cidade me decepcionou, afinal, se não estivesse aqui provavelmente não teria passado em um concurso, não teria o trabalho que tenho hoje e outras tantas coisas que o fato de estar aqui me proporcionou. Entretanto o custo não foi baixo e acabei percebendo que estar na Capital significa, de certo modo, perder-me dos meus sonhos, mas isso é uma história muito longa, a ser tratada em outra ocasião.
O problema é que tentar sentir Brasília como casa, I must confess, tem sido uma luta vã. Não consegui encontrar - na falta de esquinas, de gente, de vida urbana - uma alma em Brasília, a alma de uma cidade pela qual eu pudesse me apaixonar. Infelizmente estou percebendo que essa ausência se reflete também nas pessoas e começo a ver que, numa cidade na qual a linha do horizonte tem praticamente 360º, as pessoas dificilmente conseguem enxergar algo além do pára-brisa de seus carros.
Quando então meu coração clama pelo apaixonar-me, fecho os olhos e me imagino caminhando pelos corredores do Mercado Central, sentindo todos os perfumes dos temperos, das flores, dos queijos. Tomo uma cerveja gelada de pé no balcão do bar, um copo se quebra e ouço ecoar: Gaaaaaaalo! Ganho uma rosa do Tielo, compro castanhas, chocolates e parmesão...Ai vou ao Parque Municipal, vejo as crianças no laguinho, o burrinho disfarçado de zebra, os casais namorando na grama, me sento na porta do Chico Nunes, esperando começar o espetáculo, domingo de música no parque.
 Então subo a Rua da Bahia, caminhando, ao meu lado vejo a Igreja de Lourdes e as pessoas que saem da missa me dizem boa noite. Continuo subindo e chego ao Belas Artes, me sento e tomo um chá gelado, como um pão de queijo recheado(mmmmm....), entro na livraria, folheio dezenas de livros, cumprimento alguém conhecido. Saio e vejo a Praça da Liberdade iluminada pelas luzes de Natal e vejo também as pessoas que caminham ali todos os dias, ao se cruzarem, um cumprimento.
Sento-me em um banco da praça e penso em Drummond na janela, que tantas vezes olhando para essa mesma praça pensava em como tinha orgulho de pertencer àquele lugar, mesmo mantendo o coração itabirano.
O que preciso não é me apaixonar por Brasília...


Brasília, 12/12/2006

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Sobre partidas, retornos e asas.

Passei o último mês conhecendo e re-conhecendo lugares.

A Europa  esteve no meu imaginário desde muito pequena, quando meu pai foi a Paris e, na volta, prometeu que me levaria para conhecer a Cidade Luz. Eu tinha quatro anos e ali comecei a sonhar com o dia em que pousaria naquela terra tão antiga.

Quando desembarquei pela primeira vez em Paris estava a caminho da Itália,  do meu sonho de menina só vi o aeroporto. Vivi na Europa por dez meses e, mesmo em contato com outra cultura, outros cheiros, cores e sabores, tudo sempre me pareceu muito natural, nunca houve um estranhamento, nem mesmo uma excitação tão grande quanto a das pessoas que acompanharam minha mudança para o velho continente. Parecia que eu não estava em um país estranho falando outro idioma. Voltei para o Brasil e da mesma maneira não estranhei as diferenças, a sensação de normalidade continuou.

Um ano depois peguei novamente um avião tranconstinental. O destino final era a Itália, mas dessa vez eu ficaria alguns dias em Paris, o sonho virara realidade. Foram talvez os cinco dias mais felizes que já vivi. Totalmente sozinha, eu andei por toda a cidade, reconheci as ruas, as esquinas, falei francês, comi baguetes, li nos parques. A sensação era de total pertencimento, como se sempre tivesse caminhado pelas ruas da cidade.Vivi mais cinco meses numa vilazinha escondida no interior da Itália e então voltei ao Brasil.

Foram necessários outros seis anos para entrar novamente em um avião transcontinental, mas dessa vez apenas para fazer turismo. Maratona de seis países em trinta e seis dias - Austria, Republica Czeca, Italia, Turquia, Espanha e França, somente as capitais, com exceção da Turquia, na qual visitamos o interior.
Uma longa, interessante e divertida viagem que terminou na minha cidade dos sonhos. E novamente a mesma sensação, de ser tudo tão natural.

Vinte e sete mil quilometros percorridos, dez cidades, dez museus, dezenas de pontos turísticos, algumas ruinas de mais de dois mil anos, quase uma dezena de igrejas, outros tantos bares, restaurantes e praças. E pessoas de diversas nacionalidades, gentis, estranhas, curiosas, agradáveis, bonitas, inteligentes, simpáticas, e também hostis, desagradáveis, agressivas.

No fim, ao voltar para casa, minha principal conclusão é que não pertenço a um lugar específico. Poderia viver em quase todas as cidades pelas quais passei ( talvez não na Turquia, afinal, lá as mulheres devem cobrir a cabeça... :/). O mundo é a minha casa, como já me disseram uma vez, e não é estar em um determinado lugar que vai me fazer feliz, porque a festa da felicidade acontece é dentro de mim.

Mas, como diz meu querido amigo Bruno, minhas asas são grandes, daqui a pouco terei que abri-las novamente para voar. Por minha alma não ter raízes, viajar, sim, é preciso.


"Viajar! Perder países! 
Ser outro constantemente, 
Por a alma não ter raízes 
De viver de ver somente! 
Não pertencer nem a mim! 
Ir em frente, ir a seguir 
A ausência de ter um fim,
E a ânsia de o conseguir! 

Viajar assim é viagem. 
Mas faço-o sem ter de meu 
Mais que o sonho da passagem. 
O resto é só terra e céu." 

Fernando Pessoa

terça-feira, 20 de março de 2012

Petit

São as pequenas coisas que me animam,
enchem a alma de prazer e beleza.
Um sorriso inesperado, um olhar que queria passar despercebido.
A mão que tira uma mecha de cabelos do rosto.
Os olhos fechados na entrega.
As palavras lidas com cuidado e atenção.
Suspiros meio que escondidos, com medo de se revelar.
E uma única palavra, dita em meio a silêncios.





quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Palavras Emprestadas: Novo Amor, de Edu Krieger

Sim, todo carnaval tem seu fim.



A luz apaga porque já raiou o dia
E a fantasia vai voltar pro barracão
Outra ilusão desaparece quarta-feira
Queira ou não queira terminou o carnaval. 
Mas não faz mal, não é o fim da batucada
E a madrugada vem trazer meu novo amor
Bate o tambor, chora a cuíca e o pandeiro
Come o couro no terreiro porque o choro começou. 
A gente ri
A gente chora
E joga fora o que passou
A gente ri
A gente chora
E comemora o novo amor. 


 (Novo amor - Edu Krieger)



quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Para a menina do nariz arrebitado




03 de fevereiro de 1982


Ela nasceu na madrugada, eu provavelmente estava dormindo em casa, afinal tinha apenas seis anos. Mas lembro bem da primeira olhada na minha pequena irmã, que vinha para ser a companheira, protegida, amiga. Afinal, apesar do Jaime ser meu "limãozinho", toda menina quer uma irmãzinha para brincar, não é? 


Pois bem, ela tinha chegado, a menina morena de grandes olhos (grandes mesmo, acreditem em mim...), bochechuda e sorridente. Por algum tempo ela foi a minha boneca, igualzinha ao "meu bebê" da Estrela Era lindo estar lá com a mamãe ajudando a trocar a fralda, dar banho, fazendo cafuné na carequinha dela...


Niúra desde pequenina teve gostos extravagantes. Por exemplo, só dormia se estivesse pegando no cotovelo de alguém. Juro!!!! A gente deitava na cama e ela imediatamente grudava o cotovelo com aquela mãozinha gordinha e ficava puxando a pele até dormir. Só que esse processo era longo, demorado, então um dia nos aprendemos que o cotovelo e a mão do primeiro ursinho de pelúcia eram quase a mesma coisa (um ursinho que vestia uma roupinha vermelha e preta...observação muito importante no futuro...), e ela se acostumou com o nosso "engodo".


03 de fevereiro de 1984


De vestido vermelho, a boca toda suja de chocolate, os cabelos de cachinhos e as bochechas fofas. Essa é a imagem mais clara na minha lembrança da pequena Niúra, correndo de um lado para o outro e encantando a todo mundo. Não havia ninguém que resistisse ao sorriso da pequena e posso dizer, sem medo de errar, que nunca houve uma criança tão carinhosa quanto ela. Pelo menos eu não conheci.

Era tão encantadora que nem o Jaime escapou. Ele que, quando soube que iria ganhar uma irmã e não um irmão, falou para jogar a neném fora quando nascesse... A Niúra adorava esse irmão, e quando a gente olha as fotos dos dois sabe que ele também adorava... Ela estava lá, sempre correndo atrás dele, onde quer que fosse, imitando tudo o que ele fazia, moleca mais moleca do que o irmão encapetado...

Uma semana depois, a menina que era a própria Narizinho, com seus olhos de jaboticaba e nariz arrebitado, ganhou de presente sua própria boneca, que chamou de Nayara e nunca mais largou.


03 de fevereiro de 1994


Filha de ciganos, aos onze anos já tinha passado por quatro cidades diferentes, mudado de escola umas oito vezes, feito e desfeito amizades, sempre deixando prá trás dezenas de pessoas encantadas.

A boneca dela também cresceu e, como toda boa mãe, a Niúra se desdobrava em cuidados...muita responsabilidade pra pequena Narizinho, que cresceu rápido demais.

Mas nem isso mudou a encantadora de pessoas que, mesmo com a família dividida, continuou com seu sorriso enquanto aprendia muito cedo a ser gente grande.


03 de fevereiro de 1999


Minha pequena irmã cresceu, sorridente e determinada, inteligente, altiva e sempre encantadora. Não brincava mais com a sua boneca quando começou a achar a irmã velha interessante... Eu era o modelo a ser seguido, a minha música, as minhas roupas, os meus gostos. Um dia ela resolveu dividir comigo suas descobertas, tinha certeza que eu acharia tudo perfeito. Sim, eu entendi. Mas com medo que minha pequena irmã se magoasse com os espinhos do mundo, não achei tudo perfeito. O cristal se quebrou e deixei de ser modelo, inspiração. Para mim foram seis longos meses (aos 22 anos o tempo passa muito lentamente...), até que palavras fossem ditas, lágrimas derramadas, escolhas e posições compreendidas e a confiança restaurada.


03 de fevereiro de 2001


A menina do nariz arrebitado e nome diferente, mas que também era “cabeçuda”, virou gente realmente grande, escolheu a faculdade (com o dedo da irmã mais velha), passou facinho no vestibular e se tornou universitária. Engraçado como o tempo real passa, mas o emocional não,  continuei a ver na menina crescida minha pequena boneca...



03 de fevereiro de 2010


Década estranha... A menina encantadora de pessoas foi entrando cada vez mais fundo na redoma, no seu mundo particular, menos sorridente e mais individual. A cumplicidade se foi, dando lugar à distância, às arestas. E a gente parou de brincar. Ficou o orgulho de ver minha pequena irmã se firmar como uma grande mulher.


03 de fevereiro de 2011


Portas abertas, sorriso no rosto, planos a realizar, difíceis escolhas, liberdade.
Depois da década estranha, reconquistei o direito de ser inspiração, amiga, irmã. Abrimos uma porta juntas, construímos nosso espaço, com a nossa cara, mesmo sabendo que esse tempo não é para sempre. Crescemos, acho que pela primeira vez, juntas. Ou melhor, chegamos juntas a um mesmo lugar,  e esse é um lugar bem feliz.



03 de fevereiro de 2012


Hoje minha irmã, a pequena Narizinho, completa 30 anos. Em mim uma sensação de orgulho imenso da mulher linda, inteligente, decidida, competente, amorosa, inteira e feliz que ela é. Ao mesmo tempo uma incredulidade natural, por que é difícil acreditar que 30 anos se passaram desde que vi pelo vidro da maternidade seus grande olhos de jaboticaba pela primeira vez.

Ela chega aos 30 muito mais realizada, plena e contente do que a sua irmã mais velha, que seis anos atrás não sabia o que fazer para sair da famosa crise.

A Niúra não...ela sabe exatamente aonde quer ir, com quem, quanto tempo ficar, o que levar e o que trazer. Não teve crise dos 30, apenas conclusões de ciclos. E os fechou com tanta naturalidade e segurança que hoje, enquanto escrevo meus votos de Feliz Aniversário, olho para a porta do quarto ao lado e me pergunto: quem é mesmo a irmã mais velha????


Minha querida pequena irmã, só posso desejar que você permaneça realizada, plena e contente. Aos 30, aos 40, aos 50, aos 60, aos 70... A felicidade você já tem ao alcance da mão.

Jana

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Palavras emprestadas : e.e. cummings



nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além
de qualquer experiência,teus olhos têm o seu silêncio: 
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto


teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra 
embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar 
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando sutilmente,misteriosamente)a sua primeira rosa


ou se quiseres me ver fechado,eu e 
minha vida nos fecharemos belamente,de repente, 
assim como o coração desta flor imagina 
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;


nada que eu possa perceber neste universo iguala 
o poder de tua imensa fragilidade:cuja textura 
compele-me com a cor de seus continentes, 
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira


(não sei dizer o que há em ti que fecha 
e abre; só uma parte de mim compreende que
a voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas) 
ninguém, nem mesmo a chuva,tem mãos tão pequenas 


(e.e.cummings, tradução de Augusto de Campos )

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Palavras Emprestadas - Janaína do Arocá, Iemanjá-menina, por Daniel Abreu




Procura-se um amor
Fora de época,
Que provoque calor,
Sentimentos de uma dor incerta.

Procura-se alguém
Tão meio sozinho.
Alguém que me ache,
Que me faça voar pra fora do ninho.

Mas palavras são meias palavras,
Nada mais, nada mais.
E o homem que vive num conto de fadas,
Nada faz, nada faz.

Janaína,
Princesa do Arocá,
Te faço uma piscina
Pra evitar o mar.

Assim, numa boa
Podemos namorar,
Eu sobre uma canoa
E você a mergulhar.

Janaína,
Iemanjá-menina,
Ensina-me a nadar
E chegar aos braços teus,
Que eu te mostro o que é amar.

Mas palavras são meias palavras,
Nada mais, nada mais.
E o homem que vive num conto de fadas,
Nada faz, nada faz.

Janaína,
Rainha do mar,
O que pensam papai e mamãe
De a gente se casar.

Pássaro com peixe,
Ninguém sabe o que vai dar,
Mas o importante é o desfecho
Que o amor vai nos levar.

Janaína
Da imensidão azul,
Não chorais um mar de lágrimas
De temer a solidão,
Que eu aqui só tô pá tu.

Mas palavras são meias palavras,
Nada mais, nada mais.
E o homem que vive num conto de fadas,
Nada faz, nada faz...

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Insônia e paz



Então, numa noite qualquer, ao se deitar para dormir, você sente que tudo está no seu devido lugar.

Estende um olhar para si e compreende que as coisas buscadas lá fora sempre estiveram dentro de você,  ao alcance da mão. O castelo construído nos sonhos não é tão brilhante e atraente quanto aquele em que você já morava, mas seus olhos, acostumados, tinham se esquecido de admirar.

Entende que todo o drama e aquela dor que duraria a vida inteira não passaram de mais um pequeno aprendizado, ao lado de tantos outros.

Que seu coração não é de adamantium - porque permite ser partido- mas de um material flexível, maleável, adaptável e, acima de tudo, autocicatrizante, igual ao espírito humano.

Entende que o modo como você vive seus desejos, sonhos, prazeres, frustrações, escolhas, é seu e somente seu, ninguém pode lhe mostrar o melhor caminho, porque o perfeito para o outro não necessariamente vai ser a melhor estrada para você.

E perde o sono mais uma vez, diante de toda a compreensão. Porque no fundo é assim que funciona essa nossa vida: algumas noites as perdemos na confusão dos sentimentos, outras em sua clareza.

Creio que as escolhas que fazemos dão a real medida de nossa grandeza.  Nesse momento sinto como se tivesse aberto uma grande porta e entendido, finalmente, quão longe as escolhas me levaram e quanta grandeza trouxeram.

Sou grata, muito grata.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Sobre luto, dor e a ditadura da felicidade


"Deixa em paz meu coração/
que ele é um pote até aqui de mágoa/
E qualquer desatenção/faça não/ 
Pode ser a gota d'água"  
(Chico Buarque - Gota d'agua)
 


Você tem uma vida ótima! Não lhe falta nada, sua carreira está estabilizada, você paga suas contas, tem bons amigos, se diverte, ama, seu pai e sua mãe estão bem, tudo é perfeito! A vida é linda, o sol sorri para você toda manhã, há beleza em todas as esquinas.  Então porque diabos você não está feliz?

Pessoas assim não têm o direito de, mesmo momentaneamente, ficar tristes. Infeliz então, é impossível. Sofrimento ou dor emocional, sem chance. Você não é uma criança abandonada, você não passa fome, você não está numa zona de guerra, você não tem uma doença grave, você não perdeu um braço, uma perna, a visão. Então, decididamente, você DEVE ser feliz. O tempo todo.

Nada do que escrevi acima é mentira. A minha vida, a sua vida, a vida da maioria das pessoas que convive conosco é assim, "perfeita".Pouquisssimos do meu círculo tem problemas realmente "graves".  A felicidade aqui deveria ser compulsória. Mas não é. E não é simplesmente porque cada um vive o contentamento à sua maneira. Cada um elabora os lutos, as dores, sofrimentos e perdas no seu próprio tempo, independente da dimensão que eles tem para os outros. São as suas dores, é o seu luto, e só você é capaz de dimensionar o quão dificil é.

Semanticamente creio que o antônimo de felicidade deveria ser infelicidade e não tristeza. O contrário de tristeza é alegria. Não é porque vivo  intensamente, meus lutos, dores, perdas, sofrimentos, que sou infeliz, apenas não estou feliz naquele momento. Mas isso não faz nenhuma diferença aqui, porque a ditadura da felicidade compulsória parece não se importar. O dia todo, todos os dias, lá estão as frases, a publicidade, as fotografias, os amigos (até eles) que não querem te deixar esquecer que sua vida é perfeita e você tem a obrigação de ser/estar feliz. 

Eu concordo que nos lamentamos por coisas pequenas, transformamos  insatisfações em problemas,  problemas em dramas, porém com tempo e distanciamento conseguimos, quase sempre, dar a devida dimensão a tudo que um dia nos afligiu, provocou dor ou sofrimento. Acontece que quando se está no olho do furacão fica difícil fazer o jogo do contente, brincar de Pollyana. E não são as razoáveis "opiniões" racionais que vão dar conta de mudar esse estado.

Cada um sabe onde seu calo aperta, e às vezes aperta mesmo descalço, ainda parecendo aos olhos dos "outros" totalmente absurdo. Mas é o seu calo, o seu luto, o seu sofrimento, a sua dor. Uma hora vai passar, cedo ou tarde sempre passa (e a gente até pode se ajudar tentando ser um pouquinho menos apegado, menos dramático, mais consciente, olhando com olhar crítico o que nos causa aquele sentimento, nos deixa naquele estado). 

O que não dá para fazer é esconder de si mesmo a dor, mesmo pequena, trancar na gaveta mais escondida do armário o sofrimento, obrigar a tristeza (ainda que momentânea) a se converter numa falsa alegria, apenas porque andaram dizendo por ai que você tem a obrigação de ser feliz, ou então que a vida é perfeita como é, tudo é aprendizado , desapego é o único caminho para se compreender a impermanência de tudo.

Cada pessoa tem seu tempo, suas reações, o que fala ou cala mais fundo no peito. Não existe fórmula mágica para curar as aflições da alma, sejam elas provocadas pela morte de alguém que amamos, pelo desejo irrealizado, pelos erros cometidos ou ou pelo fim de um amor. Assim como não deveria existir a obrigação de ser feliz o tempo todo. Acima da ditadura da felicidade compulsória e da alegria imposta, a gente precisa é se aceitar e repeitar nosso próprio tempo e necessidade do luto.

E ai talvez dê pra caminhar como sugeria o Caio Fernando Abreu:

"Tomara que a gente não desista de ser quem é por nada nem ninguém deste mundo. Que a gente reconheça o poder do outro sem esquecer do nosso. Que as mentiras alheias não confundam as nossas verdades, mesmo que as mentiras e as verdades sejam impermanentes. Que friagem nenhuma seja capaz de encabular o nosso calor mais bonito. Que, mesmo quando estivermos doendo, não percamos de vista nem de sonho a ideia da alegria. Tomara que apesar dos apesares todos, a gente continue tendo valentia suficiente para não abrir mão de se sentir feliz" ...


Foto: http://www.vithais.com.br

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Chuva

Esta manhã as nuvens estavam acinzentadas. 
E o céu, tão próximo, claustrofóbico.

A chuva teimava em não cair, diferente daquela dentro de mim.
Represada, não encontra o lugar certo para escoar.

Chove aqui dentro, torrencialmente.
Às vezes tento simplesmente dissipar as nuvens, com artifícios que simulam o forte vento.
Isso não consegue mandá-las para muito longe. A chuva continua.

Todos os cantos estão úmidos e sinto que minhas paredes não suportarão por muito tempo a enchente. 
É tanta água que daria para regar centenas de jardins. 
É tanta água que matou sementes que poderiam ter florescido, se eu tivesse aprendido como parar de chover.

Agora o sol está lá fora, as nuvens se foram e o céu retomou seu devido lugar, longe, alto, libertador. 
Mas aqui dentro o barulho ainda é de chuva no telhado.
E a previsão: muita nebulosidade durante todo o período.

Oxalá toda essa chuva se transforme no sal das lágrimas, 
e eu consiga (queira) logo entardecer como o dia, claro, brilhante e solar...

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Netiqueta

Muitos de vocês já devem ter recebido um texto por e-mail, cuja autoria é atribuída a Carlos Drummond de Andrade, chamado Viver não Dói. Como dezenas de outros textos que circulam na net, esse também teve sua autoria indevidamente creditada ao autor errado.

Quem conhece Drummond, de cara lê e questiona a autoria. Mas a maioria das pessoas não conhece Drummond tão bem assim, ou Fernando Pessoa, ou Clarice Lispector, ou Mário Quintana, entre tantos outros, e cita desavisadamente nos seus blogs, Facebook ou Twitter frases, aforismos, poemas, crônicas atribuídos a esses e outros autores, ou ao maior de todo os escritores workaholics: o famoso Autor Desconhecido. 

Logo que comecei esse blog escrevi sobre isso, o uso indevido de um texto sem crédito ou creditando a autoria a outra pessoa. Nada de errado se achamos bonito, inspirador, emocionante um determinado texto e queremos compartilhá-lo. Errado é não termos cuidado com a citação, a reprodução de um texto e os devidos créditos. 

A internet há muito se tornou uma espécie de "deserto de ninguém", e há até quem defenda que "caiu na rede, virou domínio público". A coisa não pode ser bem assim, devemos, minimamente, ter o cuidade de citar a fonte, o autor daquela frase ou texto ( coisa que muita gente não faz, em especial no Facebook ou Twitter) e, mais ainda, verificar se aquela autoria atribuida é ou não real, e nisso o google ajuda bastante. 

Porque esse cuidado? Por uma questão de ética, de consideração, de bom senso, gentileza, coisas que ultimamente andam relegadas a segundo plano nessa nossa grande rede virtual. Eu mesma caí numa dessas, como já falei aqui no blog.

Tenho o hábito de postar textos de terceiros, em especial poesias de autores conhecidos. Nesse caso, uso um título para o post  (Palavras emprestadas), e sempre o nome do texto e o autor. E verifico em todas as fontes possiveis se o poema ou crônica que estou postando realmente foi escrito por aquela pessoa.

Quando se trata de textos retirados de outros blogs, sempre peço autorização para copiar, cito a fonte ou, quando me pedem, cito apenas uma parte e direciono para o blog original, com um link para "ver mais".

Isso é o mínimo que podemos fazer. Não dá para esquecer que muitos "blogueiros" são escritores que vivem dos seus blogs, seja através de clicks, seja porque os textos são "encomendados" por um determinado patrocinador. Se você simplesmente copia aquele texto no seu blog, Facebook ou Twitter,  pode estar prejudicando alguém que vive disso e, inclusive, ferindo os direitos do autor, o que pode ser crime.

Então, meus caros amigos, vamos ter mais cuidado, tanto ao citar com a autoria correta, quanto ter a gentileza de consultar o autor , no caso de textos extraídos de sites ou blogs, se este nos dá a permissão de copiar seu texto. 

Na dúvida, que tal escrever um texto sobre aquele que você gostou e linkar o original? A ética e a gentileza agradecem ;)

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Palavras Emprestadas - A poética de Manuel Bandeira



Quando estás vestida,
Ninguém imagina
Os mundos que escondes
Sob as tuas roupas.

(Assim, quando é dia,
Não temos noção
Dos astros que luzem
No profundo céu.

Mas a noite é nua,
E, nua na noite,
Palpitam teus mundos
E os mundos da noite.

Brilham teus joelhos,
Brilha o teu umbigo,
Brilha toda a tua
Lira abdominal.

Teus exíguos
- Como na rijeza
Do tronco robusto
Dois frutos pequenos -

Brilham.) Ah, teus seios!
Teus duros mamilos!
Teu dorso! Teus flancos!
Ah, tuas espáduas!

Se nua, teus olhos
Ficam nus também:
Teu olhar, mais longe,
Mais lento, mais líquido.

Então, dentro deles,
Bóio, nado, salto
Baixo num mergulho
Perpendicular.

Baixo até o mais fundo
De teu ser, lá onde
Me sorri tu'alma
Nua, nua, nua...

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Romance e Crônica

Finalmente ele entendeu: enquanto escolheu viver sua vida como um romance, uma novela de Emile Brontë ou Jane Austen, a escolha dela fora viver como um mesmo personagem em várias histórias – e transitava em todas com a mesma desenvoltura. Ultrapassava as páginas, indo de um capítulo ao outro sem nenhum constrangimento, explorando as camadas do tempo e do espaço, o personagem central de um estudado e elaborado livro de crônicas sem final.

Por muito tempo ele tentou acompanhar a liberdade daquele outro estilo literário, deixando para trás a linearidade que tanto prezava, o começo, o meio e o final de cada história, para viver o turbilhão criativo da musa, aquela que ele desejava fosse um dia a heroína somente do seu romance.

E tanto ajeitou suas páginas para encaixarem no livro de crônicas que até parecia adaptado, aventurando-se naquele mundo tão diferente para, quem sabe, poder se tornar parte das histórias dela. Mas são poucos os autores que conseguem ser bons nos dois estilos...

Um dia ele acordou e percebeu que não era realmente um personagem com características definidas, mas apenas um borrão, um esboço de quem fora, a sombra do homem que vivia escrevendo seu próprio romance. Entendeu então que o livro terminara, sem final feliz. E sua musa, sua Calliope, acostumada a circular por capítulos diferentes como se cada um fosse uma história acabada, não hesitou em encerrar aquela crônica, que desde o ínicio tivera sua morte anunciada, com a frase mais temida: e não foram felizes para sempre.

Só restaram as páginas amareladas daquele capítulo escrito a dois, que ele inutilmente tentara trazer para sua novela...páginas que agora, depois de toda a tempestade, traziam impressas apenas lindas e vazias palavras ao vento.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Estou aprendendo a tolerância

Todos nós somos modernos, globalizados, tolerantes, engajados. Contra a homofobia, a discriminação racial, o machismo. Afinal, que será do mundo se não aceitarmos as diferenças? Então discursamos, hasteamos bandeiras, postamos no Facebook, no Twitter, em nossos blogs, comentamos, opinamos: E vive la différence!

Mas quando vem para o individual, para nossas verdades, crenças, o buraco é mais embaixo. Esqueça a homofobia, a discriminação racial, o machismo. Estou falando da aceitação e compreensão das diferenças entre você e seu amigo do peito, seu amor, sua mãe, seu vizinho, seu amigo virtual. 

Eu não sou melhor do que ninguém. Também me incomodo quando vejo alguém de quem gosto metendo os pés pelas mãos, falando/fazendo bobagens, vivendo de uma maneira que eu não viveria e que, na minha infinita e inesgotável sabedoria, tenho certeza que não é o melhor caminho. 

Mas ai é que está: eu não tenho uma infinita e inesgotável sabedoria. Aliás, quase sabedoria nenhuma, para querer ensinar aos outros qual a melhor forma de encarar a vida, suas questões, seus dilemas, seus conflitos. Não dá pra querer ensinar como o meu amigo do peito, meu amor, minha mãe, meu vizinho, meu amigo virtual devem conduzir seus caminhos. Falando a verdade, minha quase nenhuma sabedoria pena para encontrar o caminho mais retinho para mim mesma, então quem sou eu para querer catequizar e salvar o mundo? 

Anda me incomodando esse hábito da catequese, da salvação, que o mundo virtual ajudou a disseminar. Também não estou livre disso, sou muito crítica e já andei querendo "salvar" alguns amigos, mostrando, às vezes incisivamente, quais eram seus "defeitos" e o que eles poderiam fazer para crescer, evoluir... 

Não dá. Cada um tem o direito de quebrar a cara sozinho, de errar e de aprender por seus próprios meios. E talvez o meu amigo, minha irmã, meu amor não quebrem a cara, nem estejam errados(as) na sua forma de enxergar o mundo. Afinal, quem foi que disse que a minha verdade, minha forma de ver as coisas, de conduzir minha vida, é melhor, mais rápida, mais fácil do que a do outro?

Meu pai e minha mãe nunca disseram: “você vai escolher esse ou aquele caminho porque nós já vivemos e sabemos o que é melhor para você”. Eles sempre respeitaram e aceitaram minhas escolhas, e quando falavam sobre como viam determinada situação, me aconselhavam com um amor tão grande que aceitava até não serem ouvidos. E mesmo quando eles tiveram razão, nunca senti o olhar de reprovação não amoroso que diz: eu sabia. 

Acho de uma arrogância sem tamanho quando uma pessoa, que às vezes nem te conhece tanto assim, com aquele ar de superioridade, vem querendo ensinar que o modo como você leva a vida, a forma como escolhe e vivencia seus caminhos não é o ideal, querendo salvar você da ignorância. Sei que às vezes caímos nesse comportamento mesmo sem perceber, então temos é que estar mais atentos. Porque ninguém é imune a criticar e ser criticado, mas saber como fazer é uma arte (que tô longe de dominar...)

Desde que decidi me mudar de Brasília, há pouco mais de um ano, andei vivendo um período meio conturbado, por diversas razões. Algumas de minhas escolhas se mostraram acertadas, outras nem tanto. Ralei os joelhos, cotovelos, até o coração, tropeçando algumas vezes nesse percurso. E, durante esses tropeços,  pessoas muito queridas estiveram sempre comigo. Cada uma delas, com certeza, tem suas opiniões sobre as minhas escolhas e sobre a forma de encarar os tropeços, às vezes mesmo sem saber exatamente o que estava acontecendo. Mas em nenhum momento essas mãos e corações amigos, que me ajudaram a levantar, deixaram de me aceitar. 

Se sou seu amigo, se prezo, se quero bem, se tenho afeto, se admiro, se amo você, também quero, e “devo”, aceitar. Pode ser que no meu coração eu esteja dizendo: acho que você está errado por pensar diferente, viver de forma diferente, mas preciso aprender a aceitar a sua diferença, ser tolerante e não julgar, mesmo que esse julgamento eu guardasse só para mim. Vou ficar ao seu lado. Se você se machucar, quebrar a cara, ou for feliz com suas escolhas, vou continuar aceitando. 

Claro que ninguém é obrigado a conviver ou aceitar outra pessoa que não tenha nada a ver. Se você, amorosa e carinhosamente, já fez tudo que estava ao seu alcance e ainda assim as diferenças são inconciliáveis, afaste-se, tire da sua vida, faça a sua escolha. Mas se o que difere você do seu amigo do peito, seu amor, sua mãe, seu vizinho são visões de mundo e da vida conciliáveis, dá para ser mais tolerante, menos julgador, menos salvador. Dá para aceitar o outro e conviver com as diferenças. Talvez o modo mais prazeroso, leve e compensador de crescer seja  através da convivência e das trocas com os outros, mas essas trocas deveriam prescindir dos julgamentos, críticas pouco atenciosas, falta de aceitação, cuidado e carinho com o outro.  
  
Você que me lê pode não concordar com nada do que eu disse, e também estará certo. Eu aceito.